2 de dezembro de 2016

Colaboração no The Comics Alternative: The Return of the Honey Buzzards, de Aimée de Jongh

Há tantos métodos de leitura quanto o seu próprio acto. A deste livro começa sobretudo em termos de um balanço. Na incessante busca e publicidade do "grande livro do ano", por vezes a crítica perde de vista respirações mais calmas da banda desenhada, que nem sempre passa por grandes tumultos mas passos incrementais. O primeiro livro "sério" da jovem artista flamenga Aimée De Jongh é um bom barómetro de um certo "estado da arte" sobretudo da escrita na banda desenhada contemporânea, que não se poderia tornar possível sem mais musculadas conquistas anteriores e até mesmo uma abordagem flexível de estilos vários, inclusive das bds em redes sociais (tumblr e afins).
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26 de novembro de 2016

O meu Nelson Mandela e outros contos. Anton Kannenmeyer (Mmmnnnrrrg)

Depois do “sucesso” de Papá em África, não apenas em termos comerciais para a editora como para a sua recepção-discussão no nosso país (o ruído e os mal-entendidos são sempre fogo em caruma), o selo “para gente bruta” resolveu publicar mais uma pequena colecção de algum material do autor sul-africano. Provindo da sua parte, isto é, de “Joe Dog”, na revista Bitterkomix, este caderno surge por ocasião da presença de Anton Kannemeyer em Portugal na sua exposição integrada no Festival da Amadora. Desta forma, este pequeno volume serve de complemento à histórias do livro anterior, e onde aquele era uma espécie de radiografia a um imaginário interno e cultural partilhado, que tantas vezes reflecte igualmente fantasmas dos seus leitores, estoutro é mais focado na experiência própria do autor, como se houvesse a possibilidade de mostrar um balanço da sua vida como fruto das consequências da educação. (Mais) 

25 de novembro de 2016

O astrágalo. Sarrazin, Pandolfo e Risbjerg (G. Floy)

Baseado no romance de uma literal enfant terrible, e em muitos aspectos o seu molde original (se bem que, em termos masculinos, se poderia apontar “Antoine Doinel” ou os miúdos de Zéro de conduite – mas esta apropriação de género não deixa de ser absurda, já que a autora real foi longe nas suas acções e não foi longe na sua vida), esta banda desenhada recupera de forma perene e vincada a celebração de uma liberdade anti-burguesa que ainda hoje (ou outra vez hoje) é difícil de enquadrar. O romance homónimo de Albertine Sarrazin foi publicado em 1965. Curiosamente, o romance tornou-se novamente acessível [v. secção de comentários para nota sobre a primeira tradução] graças a uma edição portuguesa muito recente, publicada pela irrepreensível Antígona no mesmo ano da sua segunda adaptação ao cinema, ainda que infeliz e nomeadamente de uma forma negligenciável. Com efeito, esta versão planificada por Anne-Caroline Pandolfo e desenhada por Terkel Risbjerg – que constituem uma equipa com larga experiência – acaba por ser uma devolução superior da palavra, do humor e da verve de Sarrazin. (Mais) 

24 de novembro de 2016

Outro Mundo Ultra Tumba. Rodolfo Mariano (auto-edição)

Apesar de não conter uma lombada, este volume de mais de quarenta páginas, todas elas ocupadas por matéria gráfica-narrativa, constitui-se um verdadeiro álbum, apresentando uma narrativa organizada em torno de um só núcleo. Conforme havia sido prometido em As Crónicas da Cemitéria, há todo um universo de referências que é repetido, como se o autor trabalhasse sob a noção de “tema-e-repetição”, ou algo que equivalesse à metáfora de melodias sobre um tema. De novo vemos o regresso da figura antropomórfica da morte, ora sob a imagem de uma encapuzada de gadanha ora sob a de uma caveira, guitarras clássicas, espadas, ampulhetas e garrafas falantes, e personagens advindas de um caldo genérico de high fantasy e sword & sorcery: guerreiros cimérios, princesas sedutoras, druidas, criaturas maléficas, corvos, e acrescentando-se a este bestiário criaturas do espaço, como Chewbaccas ferozes. (Mais) 

21 de novembro de 2016

Mary Wept Over the Feet of Jesus. Chester Brown (Drawn & Quarterly)

Este pequeno e estreito livro não chega a trezentas páginas, sendo menos de duzentas aquelas que contêm banda desenhada propriamente dita. Como Brown já vinha fazendo desde os seus primeiros livros “sérios”, The Playboy e I Never Liked You, grande parte do volume é composto por notas, fontes bibliográficas explanadas, ancoramento que serve para reforçar ou re-contextualizar a sua obra banda desenhística. Escusado será adiantar que “a obra vale por si”, ou argumentos quejandos, já que este território tem espaço para toda a espécie de práticas, inclusive, o que nos parece ter aqui lugar, a de nos apresentar um “romance de tese”. Que tese será essa, já é um pouco mais difuso ou diluído, mas arriscar-nos-íamos a afirmar que se trataria de uma defesa da prostituição (ou alguma, se preferirem) como não apenas uma expressão livre da sexualidade como de um caminho legítimo para a assunção de poder da parte das mulheres (em determinadas sociedades, para mais, a ocidental de matriz judaico-cristã). (Mais) 

20 de novembro de 2016

Rendez-vous em Phoenix. Tony Sandoval (Kingpin Books)

A travessia de fronteiras, em alguns casos, não é vista como possível em termos de liberdade total, mas é ela que poderá determinar a possibilidade de conquistar uma vontade que, sem o seu alcance, é esmagada na inércia. Os Estados Unidos são vistos ainda, não sem razão, como um campo mais aberto e preparado para sonhos que parecem inalcançáveis noutros contextos, sobretudo se disserem respeito a vontades que vão bem para além da mera sobrevivência e começam a ocupar áreas de criatividade artística, como a banda desenhada. Ora, pelo menos em parte, era esse o fito que o artista Sandoval tinha em querer emigrar para os Estados Unidos: a de que seria aí que o seu sonho em se tornar autor de banda desenhada profissional se poderia cumprir. Este livro inicia-se num momento em que está à espera do momento ideal para atravessar a fronteira e tentar então nesse outro país a sua sorte. (Mais) 

17 de novembro de 2016

26 de Novembro: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 1

Temos o prazer de anunciar o Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político, a cuja coordenação temos a honra pertencer. 

Trata-se de um ciclo de encontros, mesas-redondas, palestras académicas e conversas informais em torno da banda desenhada sob os signos de várias noções e princípios afectos a uma compreensão alargada da política. Utopia, cibernética, corpo, género/gender, cidade, são apenas algumas das palavras-chave a discutir, através de um corpus de banda desenhada o mais alargado possível, tornada ela no campo de objecto por excelência. Esta sessões decorrerão ao longo do resto de 2016 e durante o ano lectivo relativo a 2017, e anunciaremos cada sessão atempadamente.

Naturalmente, um foco na banda desenhada contemporânea portuguesa estará na linha da frente, e muitos dos encontros contarão com a presença dos ou das artistas para debater esses mesmos temas. A primeira sessão é já no dia 26 na Biblioteca Camões. 

Agradecimentos aos co-organizadores, às instituições envolvidas e a Marco Mendes, pela disponibilização da imagem do cartaz.

Mais informações na página do Centro de Estudos Comparatistas, ao qual pertencemos, assim como na página de Facebook

15 de novembro de 2016

A chama e as cinzas. João Barrento (Bertrand), no Cadeirão Voltaire.

Como ocorreu em várias ocasiões anteriores, a crítica mais estritamente literária é remetida para o canto mais confortável e noutras companhias do Cadeirão Voltaire. A chama e as cinzas é um longo ensaio entre o concentrado e o descontraído, o teórico e o impressivo, entre o hausto longo e a recordação por marcos. O seu objecto é a mancha da literatura portuguesa que se alastrou em contínuas e cada vez mais abertas diferenças internas depois do 25 de Abril, verdadeira data que opera uma transição, mas sem que se torne fronteira absoluta. Associada a um gesto de mostrar "para fora" este estranho animal indomado, as lições de João Barrento, cujo peso no estudo da literatura portuguesa (e outras!) é indesmentível, são prenhes e necessárias, nestes tempos de distracções com coisas que podem ser muito sonantes, muito brilhantes mas não são mais que o reflexo do sol momentâneo sobre as espumas...
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11 de novembro de 2016

Miracleman/Watchmen. Alan Moore et al. (Levoir/G. Floy)

A publicação destes dois livros no mesmo ano, por dois projectos diferentes (mas que sabemos estarem aliados por agentes comuns), vem repor uma das muitas falhas da banda desenhada disponível em Portugal em língua portuguesa na norma europeia. As relações de ambos os títulos partem da circunstância de ambas partilharem o mesmo escritor, Alan Moore, e de fazerem parte de um projecto que ele não tem abandonado, pois mais que o pareça nas suas afirmações explícitas: a da reinscrição do género dos super-heróis numa nova relação com a referencialidade real para, a partir disso, interrogar o género mas também a fantasia, a efectividade das utopias, a realidade política que nos assiste, etc. E à distância de mais de trinta anos, não pode haver dúvidas de que houve de facto uma transformação radical desse género provocado pelo trabalho do escritor inglês. (Mais) 

10 de novembro de 2016

Big Kids. Michael Deforge (Drawn & Quarterly)

Apesar do seu formato, um livrinho de bolso de capa cartonada, esta é bem capaz de ser a maior obra até à data do autor, confirmando-o não apenas como um inventor de novas formas de criar banda desenhada em termos figurativos, de composição e no uso das cores, o que já havíamos discutido a propósito de vários dos seus títulos anteriores, como também a um nível de dramatismo, exploração emotiva e relevância social. Deforge tem-se revelado como um verdadeiro autor “completo”, não no sentido clássico de “trabalhar sozinho”, mas antes de “moldar todos os elementos passíveis de uso numa banda desenhada”. A leitura dos seus projectos são de facto experiências cumulativas de atenção para com todos os factores expressivos que ele acessa. De uma forma sucinta, Big Kids é uma novela em torno da vida de um adolescente e o momento em que, nessa fase da vida, se atravessam transformações radicais a todos os níveis, não apenas físicas, como em termos de consciência, relacionamento social, personalidade, identidade. (Mais)