27 de abril de 2017

Três títulos da Avery Hill. AAVV.


Três passeios por paisagens inconstantes. A Avery Hill é uma recente e pequena editora londrina que parece disposta a fazer apostas numa certa diversidade de linguagens da banda desenhada, que tanto poderá compreender gestos algo experimentais como outras abordagens mais convencionais, mas ainda assim informadas por sensibilidades e estilos contemporâneos, abertos a um diálogo entre vários géneros, e sempre sob o signo da tranquilidade. Dos que nos foi dado a ler, vimos precisamente como constante a exploração dos mais distintos mundos ficcionais, que podem compreender a ficção científica, a fantasia, o fantástico, o mundano e até o horror, mas sempre numa pausada e certeira caminhada. Os três livros que trazemos aqui à colação, de uma forma ou outra, dão-nos a impressão de estarem unidos por “passeios” idênticos, sejam eles mais próximos da ficção ou da autobiografia, e procurando vários graus de experimentação gráfica, narrativa ou de composição. (Mais) 

24 de abril de 2017

Colaboração no The Comics Alternative: It's No Longer I That Liveth, Francisco Sousa Lobo.

O último livro de Francisco Sousa Lobo inscreve-se de uma maneira intensa no seu projecto contínuo de auto-ficção. As afinidades com aquilo a que chamámos o "Poema Contínuo" de Baudoin é por demais assinalado na obra de Lobo, um pouco como, se bem que com instrumentos distintos, dos de Marco Mendes no seu Diário rasgado. Este último título traz para primeiro plano a relação complexa coma fé, a sexualidade e a difícil comunicação com os outros seres humanos, no cadinho mais tumultuoso da vida de uma pessoa na sociedade ocidental: a adolescência. Menos do que um Bildungsroman, It's No Longer That I Liveth é uma demolição da personalidade, uma mortificação, para nela tentar ver se existe alguma fagulha ainda sobrevivente... O texto maior sobre este livro foi escrito em inglês para The Comics Alternative, deixando aqui o link directo.

15 de abril de 2017

Gaïa. Thierry Cheyrol (La Cinquième Couche)

Se tivermos em conta alguns dos exemplos incluídos em Abstract Comics, e experiências quer narrativas como algumas das peças incluídas em A Graphic  Cosmogony ou mais experimentais como 978, apercebermo-nos-emos de que tem surgido uma espécie de tendência em explorar formas de representação das transformações e devires em tempos dilatados, através das potencialidades expressivas da banda desenhada, para criar quadros de compreensão à escala humana. Noutras palavras, transformar a banda desenhada numa espécie de filtro, gráfico neste caso, que permita “dar a ver” fenómenos usualmente for do campo da visibilidade ou experiência humanas, de uma forma a poder criar um qualquer grau de relacionabilidade. (Mais) 

9 de abril de 2017

Torrente de ilustração (várias editoras).


Permitam-nos iniciar este texto com uma nota pessoal e um pedido de desculpas. A nota pessoal prende-se com uma justificação de termos estado “em silêncio” em relação a toda uma série de livros ilustrados para a infância que têm sido publicados nos últimos meses em Portugal, não por falta de atenção e menos ainda por falta de interesse, mas devido a vários compromissos profissionais e académicos que nos têm impedido de poder fazer uma recepção crítica mais atempada, individualizada e específica a cada um desses projectos. O pedido de desculpas deve-se às editoras, que têm sido generosas em deixar-nos a par das suas novidades e apostas editoriais, que não acarreta de forma alguma a obrigatoriedade de escrever sobre elas mas parte de um pressuposto de atenção, dada a (ainda) desequilibrada recepção crítica desta produção nos meios de comunicação mais massificados, e mesmo nos mais especializados reduzidos muitas vezes a discursos impressionistas. Porém, esse pedido de desculpas deve ainda dizer respeito ao presente texto, pois ao abordar mais de trinta títulos de um só fôlego, é mais do que natural que incorramos numa profunda injustiça, já que nem poderemos entrar numa leitura formal pormenorizada que cada título mereceria nem poderemos dar conta de um juízo de valor mais argumentado e claro. (Mais)

3 de abril de 2017

Trump Card. Rudolfo (Chili Com Carne/Ruru Comix)

Já em ocasiões anteriores havíamos falado dos projectos do artista conhecido por Rudolfo, inclusive aqueles em que a personagem Musclechoo aparecia nas suas estranhas aventuras. “Estranhas” aqui deverá ser lido como sinónimo de híbrido, não apenas no que o seu nome revela, mas igualmente em termos de géneros de banda desenhada, que não escondem as suas clássicas características, que o autor revisita, misturando-os. (Mais) 

1 de abril de 2017

Silent Agitators. Kent Worcester (auto-edição)

Já nos havíamos cruzado neste espaço com Worcester por ocasião do volume por si co-editados, AComics Studies Reader, se bem que ele tem trabalhado noutros projectos associados à banda desenhada (o volume dedicado a Peter Kuper na colecção Conversations da UPM, um The Superhero Reader, etc.). Este título é uma auto-edição de toda uma série de pequenos artigos, quase uma trintena de entradas, que foram publicadas na New Politics (que é publicada duas vezes por ano) entre 2003 e 2016. Esta secção, intitulada “Word and Pictures”, permitiu a Worcester uma exploração inclusiva do tipo de trabalhos abordados, mas sempre sob uma mesma perspectiva. Como explica na introdução, com vista a uma certa “correcção” em relação ao tipo de objectos maioritariamente estudados na academia – o círculo dos Estudos de Banda Desenhada, para o qual ele próprio tem contribuído, afinal -, pretende aqui focar-se sobretudo em trabalhos de natureza política. Combativa, directa, endereçada, sejam caricaturas, cartoons ou banda desenhada (ficcional ou não), toda esta produção visa, como implica o título do livrinho, “agitar”. (Mais) 

31 de março de 2017

Comic Strip. Gerard Richter (Walther König)

Apesar deste não ser um espaço de novidades, gostamos, dentro da medida do possível, de ir seguindo o ritmo das publicações mais recentes, alimentando uma atenção particular para com as novas tendências das linguagens que nos interessam. Este livro foi publicado em 2014, mas tendo-nos escapado entretanto, e graças à chamada de atenção de Domingos Isabelinho, esta é uma daquelas oportunidades em que o “atraso” se justifica mais que o silêncio. Até porque a importância e valor deste livro vem contribuir para os temas e questões que mais têm alimentado o nosso trabalho pessoal, pesquisas académicas e preocupações docentes: a linha diáfana entre os ditos “mundo da arte” e a “banda desenhada”, e a maneira como as respirações de um a outra são bem mais complexas do que usualmente se retrata e, mesmo ao contrário da vontade e opinião dos guardiões das fronteiras estéticas, a transmissão e influência é bem mais dual e completa do que se costuma mostrar. (Mais)

30 de março de 2017

La bande dessinée au tournant. Thierry Groensteen (Les Impressions Nouvelles)

Estando nós particularmente “atrasados” em dar conta de dezenas de novos livros teóricos, académicos e ensaísticos sobre a banda desenhada e outras disciplinas, dado o nosso próprio percurso de investigação, mas aos quais esperamos retornar em breve, mesmo que sumariamente, tentemos porém regressar de forma sucinta e tímida, com este último opúsculo de Groensteen. (Mais)

1 de Abril: Seminário Banda Desenhada e Pensamento Político: Sessão 5

O Seminário iniciado em finais de Novembro chega à sua quinta sessão, num ambiente bem diferente. Desta feita, encontrar-nos-emos na galeria Zaratan, espaço privilegiado de desassossego e interrogações estéticas de todos os azimutes, e os convidados são Marcos Farrajota, no seu papel de editor da Chili Com Carne e autor de bandas desenhadas de reportagem cultural, e José Smith Vargas, autor de banda desenhada que se tem "epecializado", se assim se pode dizer, em reportagens em torno de questões políticas, sobretudo na secção "Mapa Borrado" do jornal Mapa

A discussão rondará o tema da "cidade e da multidão", tema particularmente baudelariano, mas esperamos que a nossa flânerie nos leve às questões que neste momento mais urgem na cidade de Lisboa, em Portugal ou mais além, num esforço de politizar a cidadania, e com a banda desenhada.

29 de março de 2017

Parker, vols. 2 e 3. Richard Stark e Darwyn Cooke (Devir)

Uma vez que já havíamos falado alargadamente da estrutura literária e da forma dialogante entre a adaptação em banda desenhada de Cooke e os romances de Stark, passaremos à leitura imediata dos livros em si. Ficando ainda a nota de homenagem ao artista, cuja morte foi uma surpresa triste há tempo recente.

Cada um dos volumes de Parker lê-se com efeito como uma novela centrando-se nos “trabalhos” a que o criminoso se entrega. É curioso como apesar de o acompanharmos e termos mesmo direito de ir compreendendo alguns dos mecanismos psicológicos que o movem, e o tipo de “ética”, se assim se pode dizer, que pautam o seu profissionalismo, há sempre um limite curto desse mesmo conhecimento. Parker é ainda um homem misterioso, silencioso, que não se deixa endrominar por explicações fáceis. Todavia, essa distância com o leitor é também aquilo que impede uma qualquer empatia ou simpatia total por uma personagem que não esconde de forma alguma ser um sociopata (mesmo que isso seja fruto das alterações mais violentas operadas por Cooke, e não as novelas originais, mais de 20, datadas da década de 1960-1970): machista, violento, ladrão, assassino, etc.. Mesmo os pequenos laivos de “amizade máscula” que ele demonstra para com os seus colegas não será suficiente para o redimir face a uma moralidade humana societal. Mas as novelas policiais, já o havíamos dito, não são habitadas por flores que se cheirem… e há criações tão famosas com criminosos como personagens principais quanto com heróis e justiceiros. (Mais)